6 músicas sobre relacionamentos entre pai e filho

Eric, Clapton, u2, bono, música, pais, filhos, oldie, nerd,

Texto de: André Padilha.

Olá todos! Nas proximidades do dia dos pais deste ano de 2021, resolvi fazer minha estreia neste querido site com aquilo que mais gosto: música. 
A música é a expressão dos sentimentos de nossa alma mediante o som e o intuito desta coluna é sempre trazer um olhar diferente sobre as mais diversas músicas. 

Não há preconceitos: podemos incluir nas listas quaisquer tipos de músicas, de Beethoven a Martinho da Vila passando por Bee Gees.

Pessoalmente, gosto demais das músicas que trazem uma mensagem, uma lição, ainda que esta lição seja: não faça como eu fiz.

Podemos aprender com o sofrimento alheio e evitar, muitas vezes, passar pelo mesmo processo. Aliás, é da condição humana que nós nos importemos mais com aqueles que sofrem do que com aqueles que estão bem. Talvez por isso essa minha tendência de gostar de músicas “deprê”, como diriam os amigos.

A minha dica é: quando estamos falando de música, ela tem que ser ouvida. Tem que sentir e degustar. Por isso, quando for ler a tradução, não abra a página simplesmente; vá escutando e seguindo a tradução verso por verso. O enfoque, a expressão do cantor e outras nuances dependem disso e podem modificar completamente a experiência.

Sem mais delongas, feitas as apresentações, vamos ao que interessa. Seis músicas com mensagens fortes sobre a relação entre pai e filhos.

Cats In The Cradle – Ugly Kid Joe



Tradução disponível aqui. 

Clássico da banda, trata do arrependimento de um pai que, para sustentar o filho, deixa de conviver com ele e, aos poucos, vai vendo que desperdiçou muito tempo e que seu filho está indo no mesmo caminho.

É simplesmente o pesadelo da vida de todo pai que se presta e, no entanto, tenho certeza de que todo pai infelizmente já se identificou com algumas partes.

A letra é explícita e não precisa de muita explicação. O “gato no berço”, o “little boy blue (pequeno garoto azul/triste” e a “silve spoon/colher de prata” são menções a bricadeiras, cantigas de ninar e objetos utilizados por bebês.


Forever Young – Bod Dylan

Não. Não é aquela música melosa do Alphaville dos anos 80.

Se “Cats in the Cradle” é um pesadelo, esta traz o sonho de todo pai. Bob Dylan escreveu essa música para “ninar” o filho mais velho Jesse em 1966. Curiosamente, é inspirada pela “benção sacerdotal” da Bíblia (Números 6:22/27).

A tradução também não exige muita interpretação: essa música simplesmente contém todos os desejos que um pai de verdade tem para seu filho. Desde crescer e aprender a ser ético, a colaborar, a ser justo e entender a importância dos outros e de si mesmo até mesmo o “permanecer para sempre jovem”.

E só quem é pai vai entender que esse “permanecer sempre jovem/forever young” apenas traz no coração aquilo que todo pai sente por seus filhos: ele nunca deixarão de ser aquela criança amada. Por isso, essa bela canção do Bob Dylan é uma verdadeira oração, um desejo de bem e expressão do verdadeiro amor de um pai por seu filho.

Há uma lenda – aparentemente não verdadeira – de que a música teria sido composta para Jacob Dylan (cantor dos Wallflowers) e que a relação entre ele e seu pai era péssima. Mas não acho que seja necessário “dar grandeza” a esse lindo desejo expressado pelo escritor.


Father and Son - Cat Stevens ou (Yussuf).


Antes de falar da música em si, é obrigatório mencionar que essa música “rima” ou combina muito bem com “Pais e Filhos” do Legião Urbana. A estrutura de diálogos das músicas é um ótimo recurso utilizando por ambos os compositores. 

Mas ao contrário do sucesso nacional dos anos 90, a música do Yussuf Slam (vamos respeitar a opção do cara, certo?) tem um caráter mais íntimo, pois ao invés das várias frases “soltas” entre pais e filhos, aqui temos praticamente um diálogo entre um pai e seu revoltado filho. 

A tradução é simples, mas as mensagens mais impactantes são diretas e objetivas. A história da composição (disponível na Wikipedia em inglês) é um capítulo à parte e envolve desde a revolução Russa à tuberculose do compositor. Vale a pena dar uma boa lida.

O que mais me chama atenção nessa canção, porém, é que ela consegue extrair a verdade de ambos os lados: tanto pai e filho estão certos e, no entanto, inconciliáveis em suas vidas. Quem é pai vai identificar imediatamente o momento em que ele “deixou de ser filho”, já que tenho certeza de que todo mundo passou por fases como essa na adolescência.

E o golpe duro da música é justamente demonstrar que, enquanto filhos, não temos condições de avaliar tudo de maneira clara, como quando nos tornamos pais. E uma das frases mais emblemáticas do mundo musical: “Mas vá com calma, pense muito/ Ora, pense em tudo que você já conseguiu/ Pois você vai estar aqui amanhã Mas seus sonhos talvez não estejam”.

É só com o tempo que aprendemos – da maneira mais dura – essa verdade. É só depois de muitos sonhos partidos que, tristemente, podemos entender o caminho que nosso filho está seguindo e que ele, invariavelmente, terá que passar por isso.

Para o filho, porém, fica a questão: como ele pode saber da minha vida? Como ele pode pedir que eu escute quando tenho tanto a falar?

Para quem estiver disposto, esta música é uma aula de vida.

Um pito – Vários Intérpretes (composição de Claudio Patias / Nelcy Vargas / Nenito Sarturi)



Não falei que seria eclético?

Esse é um clássico gaúcho, embora eu não ache que seja extremamente tradicionalista (mas com certeza já faz parte da cultura gaúcha). 

A canção cuja letra pode ser vista aqui, lembra muito a história de “Father and son” que mencionei acima. Trata de um filho, decidido a ir embora, que recebe vários conselhos do pai.

Se em “Father and son” não sabemos o motivo da partida do filho, aqui ele está explícito: o “pito” dado pelo pai que, posteriormente acata o desejo do filho de partir e apenas pede que este lembre de suas raízes. “Pito” é um termo informal utilizado numa parte do sul para uma briga, uma advertência dada por alguém a outra pessoa.

O pai sabe que exagerou. O pai sabe que a decisão do filho é apressada. O pai tenta trazer a experiência, pede que o filho “Repares o que estás fazendo” porque ele sabe que “Depois que fores é dificil de voltar”.

Ah.. a humildade que só as derrotas e o sofrimento (arrisco dizer: a experiência) trazem! É uma coisa praticamente impossível de se passar de um para o outro e, especialmente, de pai para filho.

Só pedimos que nossos filhos lembrem de seus pais e suas raízes familiares.


Sometimes You Can't Make It on Your Own – U2

Se você quiser um pouco mais de emoção, assista essa versão, onde o Bono Vox começa dizendo “Meu pai trabalhou nos correios e amava cantar ópera. Ele morreu este ano, então pai: essa é para você”. Note que Bono tira seus óculos em respeito, porque o pai dele não gostava deles.

A tradução da música está disponível aqui.

Diferentemente das demais dessa lista, aqui nós invertemos os papéis: é o filho que se dirige ao pai. A relação entre eles é tensa, o pai parece ser daqueles velhos irlandeses cabeça-dura e, no entanto, o filho se reconhece nas mesmas atitudes que critica no pai (“é você quando olho no espelho/É você quando não atendo o telefone”).

Esta música é muito pessoal, para mim. Minha relação com meu pai era muito parecida com essa mostrada pela música: meu pai era um workaholic inveterado E delegado de polícia. Durão, forte e tudo mais. Até que em 2007 ele teve um câncer raro e de difícil tratamento. A partir dali, senti na pele a necessidade de dizer a ele “você não tem que aguentar sozinho”.

Felizmente, tudo ficou para trás e a vida do meu pai mudou completamente e hoje posso dizer que a música já não serve. Nos tornamos amigos de verdade e ele é um excelente avô, que aprendeu uma lição dura da vida e aguentou firme os socos.

Nas músicas dos anos 70 a 90, que tratavam das relações entre pais e filhos em geral, há um medo generalizado de “ser igual meus pais”. Basta lembrar de “Como nossos pais” de Elis Regina ou mesmo “Pais e filhos” da Legião Urbana (“são crianças como você: o que você vai ser, quando você crescer”).

Esse sentimento esquece algo que é muito básico: a fruta não cai longe do pé. E isso está longe de ser uma afirmação com base na genética. Com certeza em algum momento, ainda que lá no fundinho, nós todos temos dentro de nós alguma característica (não só física, mas mental também) que reflete diretamente aqueles que foram responsáveis por nossa criação, vulgos “pai” e “mãe”.

Querer ocultar ou engar isso gera uma revolta que, por sua vez, gera uma depressão tremenda. Por isso que essas canções de reconciliação são tão importantes: se reconciliar com seu pai é, no fundo, um grande gesto de aceitação de si mesmo e de verdadeira humildade.

Tears in Heaven – Eric Clapton.



Tudo acaba em morte. Vamos ser diretos e abrir a ferida!

A música foi composta por Eric Clapton e Will Jennings, sobre a perda do filho de Eric, Conor, que com 4 anos caiu do 53º andar de um apartamento em Nova York em 20 de março de 1991. A “lenda” diz que a culpa de Eric seria aumentada pelo fato de estar drogado no momento, o que traz ainda mais dor a este verdadeiro “ralo” de felicidade que representa a música.

A tradução está aqui. A música é direta: será que meu filho me reconheceria, saberia meu nome e me amaria se eu o encontrasse no céu? 

O pai tem certeza de que seu filho está num lugar melhor, mas como todos os pais que amam seus filhos, ele é inseguro quanto à sua capacidade de ser um bom pai. Não bastasse isso, ele ainda sabe que ele, provavelmente, não teria o mesmo direito de estar nesse lugar melhor em que o filho está.

Ser pai é ter dúvidas. Ser pai é nunca saber se é bom o suficiente. E essa pressão só aumenta porque você percebe a responsabilidade de ser o exemplo, o guia, a bússola na vida daquele ser que você ajudou a chegar ao mundo e que não merece nada além de amor e proteção.

O amor verdadeiro consiste num sentimento que não depende de retorno. Quem ama de verdade, não espera ser amado de volta. Quem sabe os únicos seres que conseguem fazer isso numa fração de tempo sejam o pai e a mãe (e aqui entram todos aqueles que SÃO pais e mães, não no “título”, mas na realidade).

O conflito é natural. Ele surge naturalmente como uma emancipação daquele ser, que está destinado, infelizmente, a trilhar seu próprio caminho. Como disse outro dia, os filhos são como navios: eles estão seguros no porto. Mas navios não foram feitos para ficar no porto.

Um abraço e FELIZ DIA DOS PAIS!






0 comments: